sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Pedal Varginha à São Lourenço VIA FREITAS II - 12/10/2007

Não seria um pedal inédito, é verdade, mas seria um pedal fantástico, disso ninguém duvidava. Desde que, numa troca de e-mails, havíamos decidido reeditar o fabuloso Varginha-São Lourenço via Freitas, com seus 120km, mais que 90% por terra, algumas pessoas, sem maior demora, aderiram ao pedal. Na maioria, todos já tínhamos feito esse percurso em maio desse ano e, por isso mesmo, já sabíamos que é um dos melhores trajetos já feitos pelos Bikessauros. Quem ainda não tinha ido, diante de tanta animação, também quis encarar o desafio e sair pelas estradas conosco. Assim, às 7:00h de sexta-feira, dia 12 de outubro de 2007, dia de Nossa Senhora Aparecida, saímos do bikeponto Clever, Júnior, Hebert, Rodrigo Sanches, Ronaldo e eu rumo a saída para a Flora, perto da Polo Filme, onde deveríamos encontrar o Pantufa: é que o preguiçoso não queria ter que descer até a cidade e subir o Sion novamente; por conta disso, quase que ele fica, já que se perdeu de nós.

No bikeponto, Hebert, Ronaldo, Rodrigo, Clever, Júnior e Rodrigo Sanches

Os infindáveis caminhos jurássicos

Com um pouco de paciência, localizamos o sumido e partimos pelo conhecido caminho até o povoado da Flora, onde tomamos o rumo da estrada de terra que segue pelo lado direito do rio até a Fernão Dias, ao lado da fábrica de Rações. Naquela descida final, houve o maior incidente do dia: o aro dianteiro do Pantufa se partiu, e tivemos a impressão que a jornada, para ele, estava terminada. Rapidamente o Ronaldo teve a idéia de pedir a Andreza que emprestasse a roda da sua bicicleta e a trouxesse para nós ali mesmo, às margens da rodovia. A bikessaura, sempre solícita, de imediato concordou e saiu para socorrer-nos. O Ronaldo e o Pantufa ficaram esperando a chegada da Andreza, enquanto o restante do grupo rumou para Três Corações, onde, antes de atingir o centro da cidade, virou em direção a saída para São Thomé das Letras. Paramos na padaria credenciada para reabastecimento e, depois de uma espera relativamente longa, os dois integrantes da equipe chegaram, devidamente amparados pela nossa apoiadora-mór.

Um dos muitos reparos que tiveram que ser feitos

Andreza defronte a padaria credenciada em Três Corações

Da padaria fomos diretos à estrada velha de São Thomé e seguimos vários quilômetros num ritmo forte e contínuo. Quando, bem à frente, entramos à direita em uma velha estrada, o indizível se apresentou: nunca tínhamos pedalado por tantos quilômetros com uma camada tão espessa de pó. Era tanto que, mesmo nas descidas, a bike parava se não pedalássemos, e as nuvens de poeira que eram geradas pelas bikes eram tão espessas que praticamente cegavam quem vinha atrás. Com muita habilidade e força fomos vencendo os difíceis quilômetros e logo chegamos a uma pedreira, que anuncia a proximidade do Rio Verde. Quando chegamos à sua margem direita, descobrimos que a balsa estava do outro lado, mas nem sinal do balseiro havia. Não adiantou gritar, nem tamborilar as árvores com código Morse, o danado não apareceu de jeito nenhum. O Pantufa se propôs a atravessar o rio e apanhar uma canoa que também estava do outro lado, já que ninguém saberia controlar a balsa que, ademais, provavelmente encalharia próximo a margem, tão raso estava o rio naquele lugar. O problema é que não havia remos na canoa, de forma que, com muita falta de jeito e a ajuda de bambus, ele trouxe a canoa. Logo embarcaram o Hebert, o Clever e quatro bikes, e todos protagonizaram uma cena digna de comédia pastelão, com a canoa virando-se para todos os lados desengonçadamente, até que finalmente conseguiram atingir a outra margem. A essa altura o sol estalava sobre nossos ombros e a água, convidativa que estava, atraiu mais dois sauros que atravessaram o rio a nado, e os dois remanescentes terminaram por atravessar também de canoa as demais bikes.

Atravessando o Rio Verde

Poucas centenas de metros adiante fizemos uma providencial parada na antiga estação ferroviária de São Thomé das Letras que, curiosamente, fica no município de Conceição do Rio Verde. É sempre estranho verificar que os trilhos, naquele trajeto, estão, em grande parte, encobertos pela terra e mato. Logo seguimos por um trajeto maravilhoso, em grande parte margeando a ferrovia, e em alguns pontos até passando sobre ela, até que, após extensas subidas, atingimos Conceição do Rio Verde, pequena e bem cuidada cidade.

Os trilhos, vistos da antiga plataforma da estação de São Thomé

A caramanhola “Tabajara” do Hebert

O centro da cidade estava bastante movimentado, uma vez que era também o Dia das Crianças, e vários dispositivos de recreação estavam montados. Descobrimos, preocupados, que a padaria credenciada estava fechada, e que a outra única que estava aberta NÃO tinha pães! E aí, o que fazer? Perguntamos e descobrimos um pequeno, porém caprichado self-service próximo dali. Decidimos, ao invés de sanduíches, fazermos uma refeição leve, o que foi excelente, dado ao sustento que nos proveu. Dirigimo-nos ao Clube de Campo Pi, já próximos à rodovia Vital Brazil, que abordamos e seguimos, no sentido de Caxambu, por poucos quilômetros. Entramos então à direita para a terra, já não muito distante do povoado de Freitas.

Uma bela refeição

Ruínas de uma velha igrejinha, próximo a Freitas

Foi especial a passagem pelo lugarejo: estava tudo sendo preparado para uma festa em homenagem a Nossa Senhora, e havia barracas de comidas e bebidas, e um forró corria solto ao lado da estação de Freitas, antigo entroncamento da Estrada de Ferro Minas e Rio com o Ramal da Campanha e São Gonçalo. Tão logo reabastecíamo-nos, chegou um carro com uma imagem da Padroeira e, sob os vivas a Nossa Senhora, um espocar de fogos de artifício dominou o ambiente. De uma pequena venda, um potente som irradiou uma versão cantada do Hino Nacional Brasileiro, que quase todos cantaram com devoção e que teve sua métrica marcada por coloridas bandeirinhas de papel agitadas por crianças. Num lugar onde tudo parece ter parado no tempo, foi um momento magnífico, onde presenciamos um pedaço diferente de Brasil, onde antigas tradições ainda têm lugar e são respeitadas. Não dava para ficar mais, é verdade, e por isso seguimos a estrada rumo a Soledade de Minas, distante 15km dali. O caminho é muito bonito, e tem uma subida não muito íngreme, mas extra longa, que termina numa vertente da montanha que sustenta a torre de Soledade. Um amigo nosso que desde Conceição vinha tendo princípios de câimbras, passou a apresentá-las em sua forma completa, de tal forma que a escalada foi, ao menos para ele, um tormento. Guerreiro que é, entretanto, não se deixou abater e pedalou cada metro do trajeto. Do ápice da subida até a cidade foram poucos quilômetros de pura descida, veloz e animadamente vencida.

A chegada da imagem

Os Bikessauros na homenagem a N.S.Aparecida, em Freitas

Da cidade de Soledade até São Lourenço, sabíamos, seriam aproximadamente 5km de delicioso single track ao lado da linha férrea, naquele trecho muito limpo, por estar em uso pelo trem turístico Soledade-São Lourenço. Todos aproveitamos ao máximo aquele curto, mas sensacional trecho, até que atingimos a Parada Ramon, de onde pedalamos em ritmo alucinante até o centro de São Lourenço. Tínhamos, àquela hora, um espetacular pôr-do-sol que, com seus rubros raios, tingia de magia e encantamento a nossa chegada.

Descida para Soledade de Minas

Os Bikessauros em Soledade de Minas

Homenagem da natureza aos intrépidos

Quando chegamos à nossa lanchonete credenciada, lá estavam Andreza e Janaína, saboreando chopes gelados enquanto nos aguardavam. Registramos esse grande momento em fotos e filmes, e quando também nós brindávamos o fantástico pedal, recebemos a visita do Fábio Dalia e de um primo dele que estavam em São Lourenço e, sabedores da nossa presença, foram até lá confraternizar conosco. Depois de muita conversa e brincadeira, resolvemos que era hora de retornar. Arrumamos as bikes na caminhonete do Hebert e no carro do Ronaldo e tomamos a estrada rumo a Varginha, onde chegamos felizes da vida por mais um dia inesquecível de pedal.

A foto oficial da chegada

O Fabinho e o seu primo

Hora de retornar a Varginha

Nesse dia dedicado a Nossa Senhora Aparecida fizemos mais um pedal excepcional, tanto pelas belezas da natureza que se viram ao longo do caminho, pelo grande esforço físico que demandou, pela superação a que levou alguns, como pela excelência do pessoal que participou. Alguns momentos foram marcantes, como a singela festa que presenciamos em Freitas. Gente simples, em um local despojado, dando ode si o máximo para que a festa que preparava fosse um sucesso. Talvez por também sermos assim, simples e despojados, tenha havido uma sintonia com o lugar. Talvez o azul do manto da Padroeira nos tenha remetido ao céu azul, manto que recobre a nossa bela morada no universo. Talvez o caminho percorrido nos tenha feito pensar nos infinitos caminhos existentes. Talvez tudo isso e tudo o mais que vivemos nos tenha feito unos com as bikes, com os caminhos, com os amigos e com a Terra. Talvez por esses motivos tenhamos vontade de reter tudo isso em nossas memórias. Se, ao menos totalmente, isso não é possível, só nos resta fazer como fazemos: mantermos nossos pés nas estradas e nossos olhos no infinito.


Rodrigo Silva











4 comentários:

Anônimo disse...

Rodrigo, sem palavras para elogiar o relato. Você se superou mais uma vez.
Como é legal fazer e refazer caminhos tão lindos. Sempre temos uma história nova para contar.
Agradeço ao GRUPO pela amizade e companheirismo. Os Bikessauros, acima de tudo, levam ao pé da letra o conceito de grupo. Nada é mais importante que a chegada de todos ao destino final.
Obrigado a todos.
Ronaldo.

Anônimo disse...

Grande Ronaldo, tem razão, o conceito de grupo é, de fato, muito forte em nosso meio. É, ao lado do entusiasmo, o que de melhor nós temos. Vamos continuar, companheiros, desbravando esse caminhos. Para novembro teremos muito mais. É esperar para ver.

Rodrigo

Anônimo disse...

Rodrigo,
Só hoje li o relato. Muito bom...E adorei ser chamada de apoiadora - mor...O grupo sempre poderá contar comigo.

Anônimo disse...

grande relato...parabens ao grupo...valew