sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

UBATUBA-PARATY-UBATUBA, 10/12/07

155,5KM DE ASFALTO

Para lá de estressado com o trabalho, era assim que me vinha sentindo já há algum tempo. Pensando nisso, resolvi dar-me de presente uns poucos dias de descanso, que passaria preferencialmente em uma praia, onde poderia dar um tempo e repor energias. Decidi ir para Ubatuba no dia 09 de dezembro; seriam apenas quatro dias, que deveriam ser os mais relaxantes possíveis. Como pedalar faz parte do descanso de qualquer jurássico, levaria minha bike speed, já pensando na rodovia Rio-Santos, famosa pelas paisagens que corta. Então, no domingo à tarde, após o tradicional pedal e almoço com a família, peguei o carro e zarpei para Ubatuba. Cheguei já com o cair da noite e fui-me instalar em uma simpática pousada na Praia Grande, talvez a praia mais famosa da cidade. Ainda meio desambientado, fui dar uma volta e comer alguma coisa e, como previsto, a cidade estava praticamente parada, com pouquíssimo movimento. Quase não se viam carros e poucos estavam dispostos a sair pelas ruas. Enquanto comia uma pizza, meu celular tocou, exigindo atenção: era um amigo de todas as horas que se tinha preocupado em saber se havia chegado bem. É, os colegas que me desculpem, mas nada pode igualar-se à amizade pura e desinteressada...
No dia seguinte, cedo ainda, abri as cortinas e constatei um céu azul anil e um sol de rachar; o dia seria lindo, mas provavelmente quente demais... Sem problemas, já tinha mesmo decidido que iria até Paraty e voltaria. Seriam estimados 150km entre a Praia Grande e o centro de Paraty. Arrumei o material para reparos de pneus (é verdade, dessa vez não esqueci nada!), verifiquei se tinha comigo gel, barras de cereais e isotônicos e tomei meu rumo. O início do pedal já se mostrou fantástico, com um acostamento largo e com asfalto relativamente liso, além do pouco movimento que a rodovia apresentava. Nem é preciso falar das paisagens de cartão postal que se vêem durante praticamente todo o trajeto. A “muralha” atapetada pela mais intocada mata atlântica chega muito próximo ao mar e toca-o em extensos trechos, fazendo um maravilhoso contraste com o seu profundo azul. Incrível ver o Atlântico naquele ponto; lá, o azul toma diferentes nuances, sempre com uma transparência que impressiona. Imaginava um pedal relativamente fácil, apesar da quilometragem, porque, de vezes que tinha passado por lá de carro, não me parecia haver muitas subidas. Desde o início, entretanto, percebi que o trajeto não era assim tão fácil. De carro, nem tinha percebido o quanto se sobe até a divisa de estados SP/RJ. São intermináveis subidas intercaladas com escassas descidas, e achei que estava fazendo muita força para vencê-las, além de que o pedal não estava rendendo o que pensava que deveria. Achei também que o precoce cansaço que sentia, antes mesmo de atingir a fronteira de estados, pudesse dever-se, além disso, ao enorme calor e à asfixiante umidade do ar que reinava na região. Foi assim que, depois de muito giro, finalmente entrei no estado do Rio, distante ainda 23km de Paraty. Estava impressionado, pois da divisa até Paraty o trajeto é predominantemente de descidas, bastante fortes nos primeiros quilômetros e, ainda assim, o rendimento estava baixo.
Quando finalmente cheguei, o calor estava simplesmente insuportável, com um sol abrasador e não havia uma brisa sequer. Antes mesmo de fazer uma incursão ao interessantíssimo centro histórico, procurei um lugar onde matar a fome que já há algum tempo me assaltava. Enquanto comia, fiz um balanço e vi que estava cansado e desanimado de pedalar os pouco mais de 75km da volta. Abalado, sem a sempre magnífica companhia dos sauros, e a julgar pela dificuldade da primeira metade do trajeto, imaginei, seriam horas do mais puro sofrimento, principalmente na subida até a divisa. Frustrado, pensei em desistir e arrumar uma forma de voltar a Ubatuba e saí então da cantina em direção a praça principal, onde deveria encontrar algum táxi que me pudesse levar de volta. Num repente, passou-me pela cabeça, não sei porque, de conferir a calibragem dos pneus: era isso, a libragem estava muito baixa, não atingindo 60 libras em nenhuma das rodas! Além das subidas inesperadas e das condições atmosféricas, tinha descoberto uma forte razão para o cansaço: pneus muito murchos... Um novo ânimo surgiu, então, e imediatamente mudei de idéia: voltaria mesmo de bike! Problemático foi encontrar uma forma de meter 115 libras nos pneus, já que, mesmo conseguindo permissão em dois postos para usar os manômetros, em nenhum deles consegui pôr mais que 65 libras. Depois de muito perguntar, consegui, finalmente, a calibragem ideal numa borracharia. Restavam ainda o sol e o calor que resolvi driblar dando um passeio pelo centro histórico, que é considerado um dos mais perfeitos conjuntos arquitetônicos da época colonial. Todas as vielas e vias, com suas angulosas construções de esquinas, são fascinantes. É como retroceder ao século XVII!
Um pouco mais tarde, ainda com um calor infernal, já não dava mais para retardar o reinício da jornada e, assim, iniciei o retorno. Agora sim, com os pneus bem cheios, a história foi bem diferente. Nem a extra longa subida final no estado do Rio foi problema. Rapidamente vencida, despenquei estado de São Paulo adentro, onde algumas descidas longas e fortes deram bem a noção do esforço que tinha sido feito na ida. Novamente as belas paisagens se foram sucedendo e os quilômetros foram sendo, sem maior dificuldade, vencidos. Logo estava de volta à pousada, cansado, é verdade, mas satisfeito por ter mais uma vez concluído o que tinha proposto. Ainda estava claro e quente, e deu tempo de botar uma sunga e tomar um revigorante banho de mar na bela Praia Grande.
Na manhã seguinte, bem cedo, decidi passar os dois últimos dias de folga em outro aprazível local à beira mar, no extremo sul do estado do Rio de Janeiro. Trindade, de fato, é um pedaço do paraíso na terra. É difícil encontrar tantos pontos tão bonitos em um único lugar. A mata intacta, as areias finas e douradas, o azul estonteante do mar, as praias de formatos inusitados e a simplicidade única da vila fazem de Trindade um lugar meio mágico, onde o tempo flui de uma forma diferente e onde realmente vivi dois dias fantásticos. Essa, no entanto, é uma outra história a ser contada...


Rodrigo Silva

2 comentários:

Anônimo disse...

Bom dia Rodrigão,
Conheço bem esta região e revivi em pensamento cada km que seu relato tão bem feito.
É uma região que os chinelos desejam conhecer e ficarão maravilhados.
Me diverti muito ao saber que descobriu que os pneus estavam fora da calibragem ideal após 75 km.
Tenho dúvidas sobre a veracidade deste fato.
Acredito que, como 155 km é bico para você, tentou dificultar o trajeto para ver se suava um pouco, he, he, he...
Obrigado por compartilhar sua aventura conosco.
Abraços, Ronaldo.

adilson disse...

É amigão é difícil ler o relato e não imaginar cada paisagem descrita por ti, imagino o quanto foi difícil e prazeiroso ao mesmo tempo, já que passei de carro por alí várias vezes e vc sabe, biker que é biker, mesmo de carro imagina estar de bike. Agora, quanto a Trindade, sem comentários é simplesmente fantástica. Parabéns amigão e forte abraço!!!