quinta-feira, 20 de agosto de 2009


PEDAL BAEPENDI-CRUZEIRO ~120KM


Há poucas semanas alguns amigos haviam percorrido a Estrada Real, Caminho Velho, de Ouro Preto a Paraty e voltaram eufóricos e falando maravilhas de todo o pedal, contando em detalhes cada dia da fantástica viagem que haviam feito. Nesses relatos, chamou-me a atenção o fato de que parte do caminho, entre Baependi e Cruzeiro, seguia muito de perto, quando não ao lado, o leito de duas extintas ferrovias: a E.F. Sapucahy e a Estrada de Ferro Minas e Rio. Um dos grandes atrativos daquele trecho era que passava pelo famoso Túnel da Mantiqueira, que cruza exatamente por baixo a não menos famosa Garganta do Embaú, que era passagem obrigatória para todos os que se aventuravam pelos sertões das Minas Gerais no Brasil Colônia. Essa aventura associava, então, dois mágicos ícones de nosso Estado: a Estrada Real e as antigas ferrovias. Entusiasmado com tudo isso, conversei com o Ronaldo e pedi-lhe que, o quanto antes, pudéssemos reeditar essa aventura. Pouco tempo depois, um e-mail dele propunha alguns pedais de “retorno às origens”, entre eles exatamente esse que tanto me tinha fascinado. Imediatamente liguei para ele e decidimos que o faríamos no fim-de-semana seguinte, planejamos e discutimos alguns detalhes e, com o projeto pronto, fizemos o convite aos jurássicos que tivessem interesse em juntar-se a nós. Adilson, Marcelino, Marcelo, Silas e Totonho toparam a aventura e combinamos, então, a partida para sábado, 15 de agosto, bem cedo. Partimos de carro rumo a Baependi acompanhados pela Andreza, Viviane (esposa do Marcelo) e pelo Perrengue, dos Bikelokos de Boa Esperança e, após uma viagem rápida e agradável, lá chegamos numa manhã excepcionalmente fria para essa época do ano.


No bikeponto


A simpática Baependi


Junto ao primeiro totem, em Baependi

Com muita expectativa, iniciamos a pedalada pelo leito da antiga ferrovia Sapucahy, já há várias décadas sem trilhos, seguimos rumo a Caxambu, rapidamente alcançada e, de lá, rumamos a São Lourenço, 22km distante. Nessa parte do trajeto praticamente não se vêem subidas e as paisagens, como em todo o trajeto, são muito bonitas. Seguimos num ritmo forte, vencendo rapidamente o percurso até próximo a Soledade de Minas onde, por um curto trajeto, abandonamos o leito da ferrovia e metemos a cara por umas subidas fortes que deram o tom até chegarmos a São Lourenço. Antes um pouco, porém, graças a um totem mal colocado, erramos feio e acabamos pegando umas complicadas trilhas morro acima até chegarmos a uma fazenda, onde fomos informados do nosso engano. Àquela altura, nosso amigo Totonho declarou que já sabia, desde o desvio, que estávamos errados, mas que não lhe havíamos dado confiança e, graças a isso, havíamos pego o caminho errado. Investigando a razão de tanto conhecimento sobre o caminho, acabamos descobrindo que ele é parente dos tótens, todos primos seus, e que o seu verdadeiro nome, ao menos na família, é Totótem... Daí para a frente, como os tótens não mentem jamais (bem, quase nunca...), e com a ajuda do nosso amigo Totótem, não houve mais erros. São Lourenço surgiu, imponente, sobre montanhas e foi rapidamente deixada para trás, sempre por terra, rumo a Pouso Alto, São Sebastião do Rio Verde, Capivari e Itanhandu. Esse trecho é repleto de grandes e perigosas descidas cascalhadas, tanto que tivemos dois sauros que quase foram ao chão já bem pertinho de Pouso Alto. Também perto de Pouso Alto, uma pequena ponte de madeira estava em ruínas, obrigando os sauros a um belo exercício de equilíbrio sobre uma pinguela cheia de lodo. É verdade que alguns tiveram que ser empurrados para passar por ela, mas isso já é uma outra história...

Totem & Totótem


A caminho de São Lourenço


A bela Mantiqueira ao fundo


Exercício de equilíbrio

Em Itanhandu pegamos single tracks ao lado da linha da extinta Ferrovia Minas e Rio e seguimos o delicioso caminho até Passa Quatro, onde, havíamos combinado, almoçaríamos e encontraríamos os nossos apoiadores e também a Alessandra e os kidsauros Túlio e Caio, que sairiam mais tarde de Varginha. Deu pena ver, durante todo o trajeto, o lamentável estado em que se encontra a ferrovia que, certamente, se for um dia reativada, terá que ser totalmente reconstruída. Almoçamos com moderação, exceção feita, claro, ao Silas que, como sempre, comeu até não mais poder. Ele justificou-se dizendo que as trutas que foram servidas ali estavam entre as melhores que já havia comido... Logo que terminamos o almoço, constatamos que a hora já era adiantada e não dava para nos demorarmos mais. Na verdade, estávamos mesmo é ansiosos por continuar já que, sabíamos, o mais interessante ainda estava por ser pedalado...



Todo o pessoal antes do almoço


Esplêndida paisagem na subida da serra

Saímos juntos aos trilhos e os fomos acompanhando todo o tempo. Aquele trecho é uma honrosa exceção e encontra-se perfeitamente conservado e com manutenção: é que ali funciona um trem turístico que parte de Passa Quatro e dirige-se até a estação Coronel Fulgêncio, a última do lado mineiro. Fomos percorrendo aqueles quilômetros de suave subida quase em êxtase, tamanha a beleza da paisagem que se via. Após muitos quilômetros, de longe avistamos, muito acima, torres de luz que marcavam a Garganta do Embaú e soubemos, então, que o túnel se aproximava. Ao menos eu e o Adilson sonhávamos poder novamente passar por ele, já que ambos tínhamos feito, durante as nossas infâncias, muitas viagens de trem até Aparecida; com a extinção do trem de passageiros em Varginha em 1978 e em Três Corações em 1991, pensávamos que nunca mais o transporíamos. Quando atingimos a grande reta que o precede, houve uma certa sensação de irrealidade, de que algo fantástico e assombroso se desenrolava: cruzaríamos o famoso túnel outra vez, sim! Registramos, felizes da vida, com fotos e filmes, a sua majestosa entrada e logo começamos a sua travessia. Foram momentos mágicos, povoados por remotas lembranças, com os indefectíveis gritos da gralha dados todo o tempo, marcando a passagem jurássica pelo ventre da montanha. Por momentos que pareceram uma eternidade, caminhamos iluminados pela escassa luz de dois faróis de bike até que, finalmente, a luz ao fim do túnel surgiu. Quando chegamos ao lado paulista, um totem, estóico, afirmava estarmos no caminho correto. Uma paisagem quase irreal se descortinava de lá, vendo-se, de um lado, a boca do mítico túnel surgir do seio da Mantiqueira e, de outro, a visão triunfal do Vale do Paraíba com a vista da Serra do Quebra Cangalha ao fundo. Também lá registramos a nossa passagem com fotos de todos os ângulos possíveis e imagináveis, afinal, não é todo dia que se tem uma vista daquelas...


O lado mineiro do Túnel da Mantiqueira


Luz ao fim do túnel, que tem 996m de extensão


Essa eu vou pôr em uma moldura...


O lado paulista, com os sauros felizes da vida!


Demais!


Vista do Vale do Paraíba


Comitiva de D. PedroII na inauguração do túnel


Parte da equipe que construiu o túnel

Àquela hora, o sol, preguiçoso, já se escorava no cume da cordilheira e anunciava que não se poderia esperar muito mais e, então, tomamos um single track que, poucas centenas de metros depois, distancia-se do degradado caminho de ferro e despenca montanha abaixo numa descida de tirar o fôlego. Não sei dizer qual a extensão ou quanto tempo gastamos nessa parte da trilha, só sei que ela é cheia de curvas fechadas, com forte declive, muitas pedras soltas e valetas laterais e proporciona, assim, uma descida alucinante. Nós a descemos aproveitando cada metro, entusiasmados com um caminho tão gostoso e, quando a terminamos, vibrávamos feito crianças. Quando a trilha acabou, entramos numa estradinha de terra com alguns quilômetros de extensão, esburacada, também cheia de curvas e de pura descida e que foi vencida num piscar de olhos. Esta estradinha termina na rodovia SP 52, onde entramos quando já começava a escurecer. Daí para a frente, foram mais cerca de 13km de asfalto, quase todos de descidas, até Cruzeiro, onde chegamos já às escuras. Fomos diretos à praça central da simpática cidade, onde já nos esperavam os nossos apoiadores que, inclusive, já tinham escolhido o local para a nossa hospedagem. Mais tarde, para comemorar o esplêndido evento, fomos jantar no Tulipas, restaurante descoberto por Ronaldo, Marcelino e Silas da última vez que tinham estado lá e que tinha sido por eles credenciado. Além de excelente serviço e ótima comida, o ambiente claro e agradável foi palco perfeito para o jantar jurássico. Lá mesmo foi decidido que no dia seguinte pela manhã, não haveria volta direta para Varginha, não! Os sauros aproveitariam a oportunidade para um pedal até Aparecida, a cerca de 50km dali, para não perder a chance de treinar um pouco mais e de dar uma soltada nas pernas. Infelizmente o fantasma da tendinite voltara a assombrar-me e, com dores, decidi que não faria esse trajeto. Conforme deliberado, no dia seguinte, o pessoal saiu de bike rumo ao Santuário por estradas secundárias, enquanto o apoio, agora com uma pessoa a mais, partiu pela Dutra, mesmo. Chegamos à Basílica com certo adiantamento em relação aos nossos companheiros que, entretanto, não tardaram muito e chegaram rindo à toa, após um pedal de cerca de duas horas de muito giro. Não nos demoramos muito e logo estávamos no Hotel Estação de Minas onde, como de costume, os intrépidos tomaram um banho e almoçaram. O Marcelino, Adilson, Totonho e Perrengue saíram um pouco apressados por compromissos que os dorenses ainda teriam de cumprir e, um pouco mais tarde, saímos os demais para uma tranqüila viagem de poucas horas até a nossa Princesa do Sul.


Jantar comemorativo no restaurante Tulipa


Jurássicos a postos para o pedal até Aparecida


É só felicidade!

Não dá para explicar com palavras a magnitude do que foi vivido pelos jurássicos nessa jornada. O fato de fazer um bom pedal é excelente, claro, mas isso transcendeu o prazer de pura e simplesmente pedalar. Foi muito mais, foi formidável, permeado de emoções e lembranças compartilhadas com bons amigos e com um pouco de tudo aquilo que nós, Bikessauros, sempre gostamos: caminhos inéditos, trilhas, superação, paisagens maravilhosas, companheirismo sem limites, muita diversão e algumas pitadas de história. Foi tão bom que, mal chegamos ao destino, já estávamos com uma vontade louca de fazer tudo de novo...
Os totens não mentem jamais... ora, já sabemos que, como indicadores dos trajetos Reais, isso nem sempre é verdadeiro. Se um deles, entretanto, disser que não há turma mais fantástica a trilhar esse inigualável caminho, pode acreditar, é a mais pura verdade!

Rodrigo Silva
Fotos:

5 comentários:

Bikessauros disse...

Chua, chua, chua.
Rodrigo, valeu a pena esperar.
Relato primoroso.
A travessia do túnel é uma sensação única.
É um túnel do tempo. Passado, presente e futuro se misturam.
Com esquecer a percepção do Silas próximo a Capivari que resultou em um caminho ainda melhor para Itanhandu. A euforia descida do Tototém após o túnel. A garra do Mano Marcelo que bateu de longe seu recorde em quilometragem. As montagens fotográficas minhas, do primossauro Marcelino e do Adilson na chegada do túnel. E sua felicidade estampada no rosto em cada parte do caminho. A volta do filho pródigo.

Mais fotos em:
http://picasaweb.google.com/bikessauros/BaependiCruzeiroEAparecidaI#slideshow/5372388548746057666
Abraços, Ronaldo.

Silas disse...

Valeu, Rodrigo, a cabeça cheia de lembranças e as pernas prontas para mais histórias, que você contou tão bem! Que pedal! Como disse você, o melhor ou, no mínimo, um dos três melhores já trilhados.

Anônimo disse...

Que relato mais poético, hein Rodrigo!
Desta vez você se superou!Parabéns!
Acho que um dia ainda teremos a publicação de um livro com os relatos dos nossos pedais.
Luisa

Anônimo disse...

É Rodrigo, eu já sabia que o relato seria fantástico assim como o pedal todo, mas retomar a velha estrada férrea, me veio várias imagens de mais de 30 anos atrás e o túnel era sem dúvida, a minha maior expectativa, confesso que foi uma emoção inexplicável, ímpar, imensurável e acredito que vc sabe o que é isso, porque também o vivenciou. Agradeço a todos pela companhia e tenho certeza, que momentos como este, jamais saírão da memória. Abração meu amigo!!! Adilson

reginaldo disse...

meu amigo Rodrigo você gastou nas palavras ...rsrs fotos maravilhosas...caminhos poéticos... é tão bom quando vemos pessoas como vocês, com essa alegria, prazer, essa contundencia no viver...que faz qualquer um, levantar a b...da poltrona e ir em busca de gás, de verde, de Montanha Mineira, que satisfação... parabéns aos Lokossauros.....