sexta-feira, 30 de julho de 2010

Movimentos do último final semana - Um vulcano em terras jurássicas

O último final teve vários sabores, creme ovos, creme holandês, trutifruti, ops..., quis dizer sabores de aventura, amizade e confraternização.

No sábado um número grupo fez Espraiado, pedal com alto nível técnico e físico. Moc registrou como poucos a aventura. Veja no link abaixo:
http://picasaweb.google.com.br/rodrigogsanches/FOTOSPEDALESPRAIADO?feat=email#slideshow/5497820302634561058

No mesmo dia Ronaldo e Ney fizeram Cordislândia. Pedal de giro constante.
No sentido horário, pontalete foi o trajeto escolhido por Jeffinho e turma. No sentido anti horário as meninas escoltas pelo Sopão e Mauro também fizeram pontalete. Aproveito para parabenizá-los pela dedicação e apoio às bikessauras.

Na noite de sábado tivemos o dopping do Contador. As fotos abaixo não deixam dúvidas:

Logo o DMJ (depto. médico jurássico) entrou em ação. Rodrigo Silva com toda sua competência e pos o Contador de pé.

No domingo, o grupo formando pelos bikessauros Hebert Rabbit, Ronaldo B.E., Betão Alien, Maciel Joaninha, Ary O Místico, e pelo vulcano Reginaldo Doping fizeram um maravilhoso pedal pelas trilhas da região. Sairam pela Granja, depois Carrapateiro, DeLuca, Gericó, Bananeiras, Torre da Embratel, Tachos e retorno pelo estradão até a City. A temperatura estava morna, sol entre nuvens. O papo, muito bom como sempre, rolou solto. A visita repentina do amigo Reginaldo tirou o místico Ary da toca. Um presente pedalar ao lado deste jurássico. Todo repaginado mereceu um capítulo a parte neste relato.
Seu pneu apresentou se rasgado no início do pedal, próximo a Gericó, fizeram uma pequena cirurgia no pneu traseiro de sua bike colocando um pedaço de plástico de garrafa pet. Funcionou tão bem que o ovo no pneu sumiu. Porém devido as exigências do terreno, a gambiarra funcionou até a descida da torre da Embratel onde houve novo reparo. E depois dos tachos tb pois o plástico estava furando a câmara. A última solução encontrada por Ary e Maciel foi encher o pneu com capim. Isto mesmo caros leitores, capim no pneu. O místico Ary precisou de muita técnica para levar a magrela até a city, onde Sandra, com algumas lágrimas em seu rosto e morrendo de amores estava a sua espera.
Destaques para a alegria de menino do Ary neste pedal, para o Maciel Joaninha, que deu um show de improviso nos consertos do pneu, para o Betão Alien que captou as imagens em sua objetiva precisa, para o Reginaldo que saborou as trilhas da região e para o Hebert Rabbit que estava impossível e até subiu as pedras nos Tachos.
Comemoraram o pedal no Albanos, onde os Bikessauros agradeceram a presente vulcânica do Reginaldo e esperam que esta seja a primeira de muitas visitas. Boa viagem e retornem em breve Reginaldo, Néia, Laurinha e Rafa.



Fotos pelo caminho


Pneu em movimento com capim dentro.

Esta felicidade estampada no rosto não tem preço.

Relato: Ronaldo
Fotos: Betão Alien

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O Causo do Marcelino

Um dia desses, eu resolvi fazer um treino com dupla utilidade: Inspecionar um serviço na fazenda e ao mesmo tempo esquentar as canelas no pedal. Na volta, encontrei um conhecido trabalhador da região pedalando uma conservada bike caloi de 18 marchas, pneus barriga de cobra (lisos) rss r...rss, corrente alheia a qualquer tipo de óleo, mas apesar dos ruídos a bichinha tava funcionando... Aí ele me perguntou: Vai pra cidade? Eu disse sim!! Então ele disparou:" Vamo por dentro cunversano que eu vo lá no Juca". Significa que iríamos pegar uma estradinha gostosa de pouco movimento por uns 15 km. Topei na hora!!! O Dinho ( apelido dele ) é gente finíssima, de uma conversa boa, presença agradável. A "specialized" já tava "olhando de lado com um ar de superioridade...." Partimos!!! conversando.....decidão, ritimo moderado tipo eu tava esperando ele....aí fui apertando, ele junto! Apareceu um morrinho, 2 X 5 girando e ele junto! Baixadão, 3 X 9 socando e ele ficou um pouquinho, mas logo chegou. Aí chegou a famosa serrinha e eu pensei: Vou me despedir, agradecer a companhia e vou me embora por que ele vai gastar meia hora pra subir isso aqui, por sorte não falei nada!!!! Começamos a subida 2 X 2 girando e ele junto!!! A coisa pesou, voltei 1 X 3 girando e... ele junto!!! Terminei de 1 X 2 , paramos lá no alto e ele humildemente disparou: Se num fosse eu cê já tava na cidade né? ..... Desnecessário comparar as bikes!!!! Perguntei se ele não venderia..... O pulmão e as pernas.....Ele deu um risadão daqueles que contagiam! ESTE É O RELATO!!!!

terça-feira, 13 de julho de 2010



PEDAL DE CORPUS CHRISTI:A MELHOR DISTÂNCIA ENTRE DOIS PONTOS



PRIMEIRO DIA: ATÉ SÃO THOMÉ DAS LETRAS

É, dessa vez não seria diferente: um feriado prolongado se aproximava e, claro, alguns jurássicos tinham-se animado para fazer um pedal maior e mais interessante. Há tempos o Ronaldo vinha querendo fazer uma viagem de Varginha até Cruzeiro passando por vários trechos da Estrada Real e também por certos locais ainda não conhecidos de nós. Aproveitando então a oportunidade, enviou um convite para uma viagem inédita em diversas partes; planejara ele três dias de estrada, terminando o primeiro em São Thomé das Letras, o segundo em Baependi e, o terceiro, em Cruzeiro, com retorno no quarto dia. De cara, Hebert, Marcelo, Rodrigo Silva e Silas interessaram-se pela aventura, ainda que alguns de nós não pudéssemos estar presentes todos os dias. Combinados, quinta-feira, dia 3 de junho, encontramo-nos na Fonte, onde a numerosa turma dos tradicionais pedais também estava presente e, animadamente, discutia sobre o melhor pedal a ser feito. De última hora apareceu o Pantufa que, após saber o que pretendíamos, entusiasmou-se com o trajeto daquele primeiro dia e, após tratar carona para a volta de São Thomé a Varginha, integrou-se ao nosso grupo. Partimos sem demora, mas o caminho não seria o convencional, não! O Ronaldo, sabe-se lá o porque, havia planejado chegar a São Thomé passando por Carmo da Cachoeira e São Bento Abade e, ainda por cima, saindo pelas trilhas que passam pela mata dos de Luca, Carrapateiro e Ribeirão da Cava! Sem quaisquer problemas, exceto uma corrente arrebentada, rapidamente estávamos na padaria credenciada em Carmo da Cachoeira e tomávamos orientações sobre qual o melhor caminho a seguir já que, fora esse trecho, o restante até o destino não era conhecido por nenhum de nós. Seguimos até a Fernão Dias e, poucos quilômetros depois, entramos para São Bento via terra. Esse caminho logo se revelaria muito bonito, com verdejantes montanhas e sob um céu limpíssimo; algumas interessantes casas em ruínas, vias férreas ainda em uso e até um lago de uma cor surreal deram um entusiasmo todo especial aos aventureiros.



Os aventureiros do primeiro dia



Rumo ao Carrapateiro



O capim estava alto...


Ruínas próximas a São Bento Abade



Parece irreal essa cor!


Logo após uma grande subida, tivemos uma das paisagens mais legais de toda a viagem: via-se, sobre uma distante colina, São Bento Abade e, além, majestosa, surgia São Thomé bem mais acima. Parecia-nos dali que as cidades estavam bem perto uma da outra e que haveria entre elas somente escassos quilômetros que deveriam ser velozmente vencidos, o acabaria por se mostrar completamente falso. Chegamos a São Bento com quase 70km rodados e paramos para lanchar na padaria mais central da cidade, onde perguntamos sobre como seguir até São Thomé por terra. Não foi difícil conseguir orientações, já que até o prefeito da cidade, presente no local, deu uns pitacos, além de fazer questão de tirar uma foto com o grupo. Àquela hora alguns já davam sinais de cansaço, claro, o pedal tinha sido bastante forte até ali, de forma que Andreza, nossa apoiadora-mor, foi requisitada para o resgate de um colega que preferiu não seguir adiante. Seguindo as informações obtidas, sabíamos que deveríamos seguir em direção a estrada de Luminárias e, depois de N mata-burros, virar à direita, descer e chegar ao posto da ESA. Numa dessas quebradas acabamos pegando uma estrada errada e desviando-nos do caminho por alguns quilômetros, pedalando em meio a infindáveis eucaliptais até que, ao observarmos a cidade das pedras, verificamos nosso erro e corrigimos a rota. Dali para a frente, também sem conhecer o caminho e sem certeza de nada, fomos desbravando estradas ora mais largas, ora praticamente escondidas até que, após novo erro, morro abaixo como sempre, acabamos chegando ao posto da ESA, onde o pessoal nos deu dicas de por onde seguir dali para adiante. Retornamos algumas dezenas de metros e fizemos uma longa descida antes de iniciarmos uma infernal sequência de subidas, todas elas íngremes e intermináveis, daquelas que se sobem rezando para chegar ao final. Após um esforço que pareceu durar uma eternidade, finalmente chegamos ao asfalto, a menos de 5km do destino. Lógico que teríamos ainda que vencer o verdadeiro penhasco em asfalto que termina às portas da cidade, parte que faríamos já ao início do anoitecer que, muito cedo, engolia toda a região.


Em primeiro plano, São Bento e, no alto, São Thomé das Letras


Foto com o prefeito de São Bento Abade


São Thomé, dourada e replandecente sobre a montanha

Chegamos ao centro com a cidade já às escuras e com uma temperatura bastante baixa e desconfortável para quem estava vestido com roupas de bike e, o pior, não havia nem sinal das nossas apoiadoras que deveriam levar-nos ao hotel para banho e troca de roupas. Morrendo de frio e de fome, recorremos a alguns ambulantes que ofereciam salgadinhos a preço de banana, o que foi a nossa salvação. Pouco depois, Alessandra, Andreza e Viviane surgiram vestidas como se fossem viajar para o polo sul, desculpando-se pelo pequeno atraso, e acabaram revelando que estavam fazendo umas compras (novidade, hein?!). Do Hotel Chão de Minas, já confortavelmente agasalhados, fomos, sem perda de tempo, para repor as energias, ao já tradicional reduto jurássico, o restaurante Vó Sinhá. Hebert, Marcelo, Pantufa e Silas, após o jantar, embarcaram nos carros levados pelas meninas e partiram rumo a Varginha, alguns deles com promessa de encontrar-nos no sábado, em Baependi, para o esplêndido trajeto pela Estrada Real até Cruzeiro. Bem, Andreza, Ronaldo e eu decidimos não ir diretos ao hotel uma vez que, a despeito dos ventos polares que davam as caras por lá, a cidade estava cheia, tanto de gente quanto de mistérios, com as suas mil tribos e com os seus inebriantes cheiros e cores, diferentes a cada porta e em cada rua por que se passasse. Além disso, a Andreza já tinha ouvido falar das fabulosas pizzas na pedra e quis, a todo o custo, experimentar uma delas. Fomos então para a tradicional Pizzaria Ser, localizada em uma tradicional casa no mais puro estilo de São Thomé, toda feita de pedras e onde se come uma das melhores pizzas do universo... E não é que a Andreza ainda queria comer mais? Pois é, tinha ainda que ter sobremesa, lógico... Optamos por uma ida ao mini-shopping, onde comemos pudim de leite e tomamos chá de manjericão preparado por uma típica moradora de lá, num lugar onde tudo é preparado por ela, desde a cultura até a finalização dos produtos. Bem, a essa altura já estava bom demais: após um pedal de 110km para lá de pesado e de tanto ir e vir na cidade, estávamos exauridos e já merecíamos um descanso.


Jantar no Vó Sinhá


Aura de mistério...


Show de pizza!



Personagem típica de São Thomé



SEGUNDO DIA: SÃO THOMÉ DAS LETRAS A BAEPENDI

O dia amanheceu frio e claro, apesar de parcialmente nublado, e foi assim que Rodrigo e Ronaldo saíram do Hotel Chão de Minas. Havia várias opções para ir até Cruzília, e o simpático pessoal do hotel nos tinha sugerido seguir pelo asfalto por alguns quilômetros antes de derivar para a terra. Não estávamos, entretanto, a fim de encurtar distâncias e sim, de fazer o melhor caminho e decidimos, dessa forma, não sair pelo lado do asfalto, mas sim, seguir em direção ao Sobradinho e de lá, quem sabe, atingir a Estrada Real e passar pela Fazenda Traituba, espetacular marco daquela região e que desejávamos muito rever. Descemos a interminável ladeira da Eubiose e, encantados pela inebriante paisagem, reluzente e clara, rapidamente chegamos ao Sobradinho e logo o deixamos para trás, rumo a estrada para Cruzília. Vencendo morros cheios de cascalho e inclinados ao máximo, chegamos a um T: para a direita, Cruzília, e para a esquerda, Luminárias. Ora, decidimos fazer o caminho mais longo, indo em direção a Luminárias para, de lá, rumar a Carrancas e, aí sim, atingir a Estrada Real. Assim seguimos, mais uma vez sem nenhuma certeza do caminho até que, em uma fazenda, uma camarada disse-nos para seguir adiante que atingiríamos, sim, o nosso objetivo. Oito quilômetros adiante, um motorista de uma pick up afirmou-nos exatamente o contrário e insistiu que não chegaríamos a Cruzília, de forma nenhuma, por aquele caminho. Bem, teríamos ainda mais 120km no dia seguinte e, na incerteza, resolvemos então retornar pela mesma estrada por que viéramos e acrescentamos, assim, 16km à nossa jornada. O caminho, todo de terra, a partir do cruzamento para o Sobradinho passa por intermináveis plantações de eucaliptos, com uma sucessão monótona e infindável de grandes e pequenas subidas, com uma vista que nem é tão privilegiada assim... Para piorar, não vimos uma só viva alma nesse trajeto todo e cedo notamos que estávamos com fome e que a água que levávamos já estava no fim e, sabíamos, teríamos pelo menos mais 20km pela frente... Tudo isso começou a pesar e, nos últimos quilômetros, estávamos tensos e preocupados e nem vontade de conversar tínhamos mais. Após um tempo que pareceu uma eternidade, finalmente chegamos a Cruzília onde, numa simpática padaria, tiramos o atraso e comemos a valer ante o espanto de Adriana, a dona do estabelecimento que, sem parar, reclamou bastante do clima; ela, santista que é, não está acostumada ainda com tanta friagem...



O nosso pouso




A caminho do Sobradinho



O Sobradinho




Subidão de tirar o fôlego!


Casarão próximo a Cruzília

Ufa, Cruzília, finalmente!

Daí para a frente, revigorados, pegamos a Estrada Real e a situação mudou completamente, com uma graciosa estrada que, de cara, levou-nos ao topo de uma espécie de platô, onde pedalamos por grandes distâncias desfrutando uma vista ímpar. Pena que logo a diversão acabou e chegamos ao asfalto, já avistando Baependi ao longe. Mal tínhamos começado a enfrentar aquela estrada, o Ronaldo teve a idéia de entrarmos por uma estradinha de terra que saía do asfalto e, em tese, seguia em direção a cidade: bola dentro, o caminho foi muito divertido e fácil e logo chegamos a Pousada Cachoeirinha, onde estivéramos há cerca de quatro anos com toda a turma. Ela continua aconchegante e agradável tal como naquela época e, felizes por mais uma etapa concluída, brindamos com a Andreza que, naquele momento, também chegava. Bem mais tarde seguimos até Caxambu para uma sessão de massagem chinesa que a Andreza tinha marcado para nós todos, e que foi realmente reconfortante e até abriu-nos o apetite para o jantar que veio em seguir e que encerrou as atividades do dia. O pedal do dia seguinte prometia, já que esperávamos a reintegração do Marcelo e do Silas ao grupo, além do que, possivelmente, viriam também para acompanhar-nos os nossos amigos Rodrigo Sanches e Totonho. Ademais, o céu estava estrelado e, ao contrário do que tinha previsto a meteorologia, pensamos, não deveria chover e teríamos mais um maravilhoso dia de pedal no sábado.


Em primeiro plano, Baependi; ao fundo, Caxambu

Caminhos de Minas


Paisagem serrana




TERCEIRO DIA, BAEPENDI A PASSA QUATRO

É, para nosso desgosto, a meteorologia não tinha errado e o dia amanheceu, sim, chuvoso e frio. Encontramo-nos no refeitório para o café e o Ronaldo deu-me a notícia de que os nossos companheiros não viriam mais encontrar-nos para a continuidade do pedal porque também em Varginha estava chovendo sem parar e, dessa forma, não se tinham animado. Deliberamos sobre a continuidade da viagem, discutindo os prós e contras de enfrentarmos barro e chuva durante provavelmente todo o dia e se deveríamos, de alguma forma, alterar o trajeto. Claro, no fundo, sabíamos que continuaríamos, sim! Não havíamos chegado até lá para desistir e retornar de mãos abanando... De qualquer forma, resolvemos esperar para ver se a chuva ao menos diminuiria mas, que nada, já eram quase dez e meia da manhã e lá estava ela, firme e forte e indiferente aos nossos desejos. Tudo bem, após um show de mulambice que incluía sacolas de plástico nos capacetes e nos pés e nada elegantes capas de chuva de R$ 1,99, lá fomos nós rumo ao centro de Baependi, onde iniciaríamos o nosso caminho pela Estrada Real. Era incrível a quantidade de barro que havia, mesmo nos caminhos onde, em outros tempos, descansavam trilhos de ferrovias, de forma que enfrentamos lama, poças d'água, derrapadas e, sobretudo, muito, muito esforço para fazer uma lenta progressão rumo a Caxambu e São Lourenço. Coitadas das nossas bikes, logo começaram a ranger e a fazer barulhos para todos os lados! Preocupados com a possibilidade de quebra, um pouco antes de uma derivação próxima a Soledade de Minas, resolvemos falar com nativos para saber se havia caminhos alternativos que pudessem estar melhores do que aqueles que vínhamos fazendo até aquela hora. Indicaram-nos uma estradinha que, apesar de afastar-nos temporariamente da Estrada Real, deveria ser menos embarreada e obrigaria-nos a somente uma subida de cerca de um quilômetro e meio antes que iniciássemos uma grande descida rumo a cidade. Lá fomos nós e, de início, vimos que a lama não estava tão escassa como desejávamos e, em seguida, vimos aquele quilômetro e meio se transformar em uma subida sem fim com, no mínimo, três ou três quilômetros e meio. Com bastante dificuldade, finalmente chegamos a Soledade, onde um posto foi providencial para uma necessária lavagem das bikes. Já estava tarde àquela hora e, para adiantar um pouco a viagem e para evitar mais lama, decidimos chegar a São Lourenço pelo conhecido single track junto a linha férrea, o que foi feito num instante. Logo que chegamos, concluímos que, se mantivéssemos o plano de atingir Cruzeiro naquele mesmo dia, chegaríamos ao alto da Mantiqueira já ao cair da tarde, o que provavelmente obrigaria-nos a fazer as trilhas serra abaixo já no escuro, o que seria totalmente inseguro e imprudente. Decidimos então terminar a jornada do dia em Passa Quatro e, de novo, para dar uma adiantada, seguimos até Pouso Alto por asfalto já que a chuva caía sem parar. Esse trecho foi feito em ritmo acelerado, em parte por render muito mesmo, e em parte porque, ao iniciá-lo, vimos o quão perigoso estava: as estreitas pistas sem acostamento estavam lotadas de carros e caminhões que passavam zunindo, alguns deles a distâncias assustadoramente curtas de nós – esse foi o principal motivo de termos optado por, a partir de Pouso Alto, retornarmos ao leito de terra da Estrada Real. E assim fizemos.

Choveu desde a madrugada...

O Sr. Mulambo lavando as bikes


São Lourenço debaixo de chuva

Seguimos para São Sebastião do Rio Verde com destino a Itanhandu e, confesso, já estava meio desanimado com tanta água e dificuldade. Foi quando a mágica aconteceu: bem antes de Itanhandu, ao começarmos uma subida escorregadia como quiabo, o Ronaldo viu uma entradinha na mata e resolveu dar uma explorada. Para nossa surpresa, atingimos uma parte da linha férrea que, naquele local, foi tragada pela mata e que tem, ao seu lado, uma estreita trilha. Foi sensacional ir seguindo em frente por quilômetros a fio por aquela trilha onde trilhos e pontilhões abandonados surgem do nada para, em seguida, de novo desaparecer e assim por diante. Quando nos demos por nós, até a chuva tinha parado e saímos, após longo percurso, dentro de Itanhandu. Não restava mais nenhum cansaço e nem desânimo e tudo o que havia era o mais puro entusiasmo. Dali até Passa Quatro o caminho foi todo feito em single tracks, que fizeram a nossa felicidade até o final. Quando chegamos, Andreza, nossa apoiadora de sempre, já tinha encontrado uma ótima pousada: o local, muito bonito, é de um capricho ímpar, com pequenos detalhes que, no fim, fazem uma grande diferença e o tornam muito agradável. Mais tarde aproveitamos a fria noite da Mantiqueira para comer uma massa e tomar um vinho fantástico numa casa recém inaugurada onde pudemos, além disso, assistir a um belo show de MPB. Animados mas cansados e vários graus mais altos, fomos dormir um pouco porque o melhor da festa haveria de ser no dia seguinte.


Jantar na Pizzaria Seis e Meia





QUARTO DIA: PASSA QUATRO A CRUZEIRO

O dia amanheceu lindo, com um céu azul puríssimo e com uma luminosidade estonteante, daquelas que só se vêem mesmo nesta época do ano. Tínhamos dormido um pouco a mais já que o dia seria leve, de pura diversão e não tínhamos nenhuma pressa para sair. Após curtirmos um pouco mais a excelente pousada com o seu café da manhã fora de série, saímos pelos intermináveis single tracks ao lado da Ferrovia Minas e Rio, já desde o centro da cidade. As paisagens da serra, normalmente deslumbrantes, estavam ainda mais bonitas já que as montanhas, pedras e riachos estavam muito realçados pela intensa luz que havia. Até a temperatura, agradavelmente baixa, tornou ainda mais legal aquele trecho. Desde o início fomos progredindo devagar, sem nenhuma pressa, aproveitando cada quilômetro e saboreando cada cena, num pedal inesquecível. Tão fantástico estava que nem muita conversa houve: é que o pedal foi meio que meditativo e de introspecção, favorecidos que estávamos pelo cenário inspirador. Durante uma das paradas para fotos, ouvimos ao longe um estranho ruído: rá tá tá tá, rá tá tá tá, rá tá tá tá... Logo ficou claro que teríamos a sorte de encontrar o famoso trem turístico que vai de Passa Quatro até a última estação antes do túnel. Todos que já tiveram essa experiência sabem o quanto é fantástico ser surpreendido pelos antigos trens que parecem ter saído de uma fenda no tempo e aparecer, diante de nossos olhos, como novos! Interessante foi que os passageiros do trem, assim como já ocorrera em São Lourenço em outra viagem, foram também tomados de surpresa ao ver-nos por lá. E rá tá tá tá, rá tá tá tá, o trem desapareceu resfolegando por entre as montanhas...


Pousada Eco da Montanha, em Passa Quatro


Casebre abandonado à margem da ferrovia

O incrível encontro com o trem turístico


A subida da Serra

Num instante chegamos à estação Coronel Fulgêncio e, mais uma vez, adentramos o lendário Túnel da Mantiqueira. Dessa vez, no entanto, tivemos que atravessá-lo sem qualquer iluminação já que, na empolgação da saída, eu, responsável por trazer o farol de bike, miseravelmente esqueci-o na bagagem... Para nossa sorte a luminosidade, de tão intensa, foi capaz de ao menos clarear uma boa parte da travessia, feita numa curtição incrível. O dia podia estar lindo e com clima perfeito mas, mesmo assim, as chuvas do dia anterior ainda deixavam as suas marcas e, logo que iniciamos a descida da montanha, as trilhas, fantásticas e para lá de inclinadas, estavam extremamente escorregadias e cheias de valetas pra todos os lados. Não adiantava frear que as bikes não respondiam e, às derrapadas, com muita atenção mas também divertindo-nos à beça, finalizamos o espetacular trecho, seguido por uma outra grande descida em estrada de terra que descemos a mil por hora. Rapidamente chegamos ao asfalto da SP 52 onde, junto ao último totem daquele pedaço, a Andreza já nos estava esperando; é que, tínhamos pensado, naquela circunstância, pouca graça haveria em descer até Cruzeiro pelo asfalto e elegemos aquele como o ponto final do nosso projeto. De carro voltamos a Passa Quatro onde, na mesma pousada, tomamos um banho e iniciamos o caminho de volta a Varginha, com pouco mais de 320km rodados e muita história para contar.


A estação Coronel Fulgêncio; ao fundo, o túnel


A travessia


A extremidade sul do túnel junto a exuberância
da Serra da Mantiqueira


Ao fundo, o Pico dos Marins

video

O encontro com o trem na Mantiqueira


Todos sempre aprendemos que a menor distância entre dois pontos é sempre uma reta. Até aí, nenhuma novidade. Mas será que a MELHOR distância entre dois pontos é sempre uma reta? Quando chegamos ao alto da Mantiqueira, logo abaixo da Garganta do Embaú, havíamos percorrido 300km, que teriam sido somente 180km, caso tivéssemos ido por asfalto. Fizemos um pedal fantástico, pleno em esforço, superação, exploração de caminhos desconhecidos, belas paisagens e muito companheirismo, passando por regiões lindas do nosso Sul de Minas, num trajeto prá lá de improvável, caso o que se buscasse fosse objetividade e economia de tempo e energia. Caso pragmatismo fosse o buscássemos, a viagem, se feita pelo asfalto, teria perdido enormemente em emoção, beleza, experiência e aventura. Então, nas aventuras jurássicas, a melhor distância entre dois pontos quase nunca é uma reta: por estarmos certos de que o grande prazer está em viver cada momento de nossos caminhos, a melhor distância, para nós, é aquela que nos proporciona os momentos mais intensos e marcantes, independentemente dos pontos de chegada pois, a estes, temos certeza, chegaremos sempre.

Rodrigo Silva