quarta-feira, 18 de julho de 2012


TRAVESSIA MONTE VERDE – CAMPOS DO JORDÃO


Parece que foi ontem... Muitos anos atrás, logo que comecei a pedalar, lembro-me de ter lido, em um número da Bike Action, uma matéria sobre uma viagem que os Sampa Bikers tinham feito de Monte Verde a Campos do Jordão por terra. Fiquei muito impressionado com as fotos e com o desafio que, àquela época, parecia-me invencível. A matéria dizia que o pedal era muito bonito mas duríssimo, somente sendo possível ser feito em um dia por quem estivesse muito bem condicionado e, por isso mesmo, eles o tinham feito em dois dias. Desde então, tive muita vontade de, um dia, repetir esse mesmo trajeto, independentemente de quantos dias levasse. Há alguns meses, em conversa com os parceiros de sempre, finalmente senti que o momento tinha chegado e, em deliberação, ficou mais ou menos combinado que o faríamos ainda nesse ano, no inverno e, de preferência, em um dia. Iniciamos então os preparativos, com a dificuldade de sempre para achar um dia que fosse bom para todos e também para conseguir hospedagem, já que, no inverno, vagas, tanto em Monte Verde quanto em Campos, são bem difíceis de se encontrar. Decidimos que o pedal seria feito no sábado, 23 de junho. Como a previsão de muita chuva nos ameaçava atrapalhar, resolvemos remarcá-lo para 30 de junho, data em que ele aconteceria, houvesse o que houvesse.
Tínhamos que trabalhar o dia todo na sexta-feira e, conseqüentemente, sairíamos tarde de Varginha. Além disso, quem já esteve em Monte Verde sabe quão sinuosa e perigosa é a estrada de acesso a partir da Fernão Dias. Por essas razões, planejamos passar a primeira noite em uma pousada em Camanducaia, às margens da Fernão Dias, e terminar de chegar a Suiça Mineira no sábado bem cedo. Com um time formado por Adilson, Hebert, Rodrigo, Ronaldo e Silas tendo como apoiadoras Alessandra e Andreza, saímos do Hungry Tiger por volta das oito horas da noite, com mais de meia hora de atraso por problemas de trabalho que quase me tiram da viagem. Fizemos uma rápida parada no Fernandão, em Pouso Alegre e, lá pelas dez e meia da noite, chegamos a Pousada das Palmeiras, lugar muito caprichado e bem cuidado. Teve gente que ainda foi beber um vinho mas, cansado, só quis saber de tomar um banho e ir dormir.








Saída do Hungry Tiger







Pousada das Palmeiras                                     








Café da manhã
Às quinze para as seis da manhã o despertador esbravejou, convocando-nos a sair das camas e enfrentar o frio, à hora intenso, natural para essa época. No refeitório, onde um caprichado café da manhã estava sendo posto, a turma se encontrou, tiritando de frio, animada e pronta para saciar a fome e seguir viagem. Sem maiores embaraços saímos para vencer os poucos quilômetros de Fernão Dias que ainda restavam e tomamos a perigosa rodovia que nos levaria até Monte Verde. Pode ser perigoso, mas é lindo o lugar, com relevo acidentado e atapetado com florestas de pinheiros, bastante diferentes do que vemos aqui na nossa região. A neblina, espalhada por todos os recantos, fazia um lindo contraste com o verde da mata e o puro azul do céu que nos recobria. Quando finalmente chegamos ao Portal da cidade, uma rápida consulta à planilha que tínhamos mostrou que o caminho não passava pela vila mas, ao contrário, seguia em asfalto e em direção oposta, motivo pelo que não entramos em Monte Verde – haveria de ser numa próxima! Saímos de lá com temperatura de 10 graus e com sensação térmica certamente muito abaixo disso, o que não nos incomodou, de forma alguma. Pelo contrário, foi ótima a sensação de iniciar o pedal involtos pelo frio. Depois de alguns poucos quilômetros de asfalto percorridos, finalmente pegamos uma estradinha de terra, que era realmente o início do grande desafio. O caminho estava maravilhoso e, o tempo todo, altas montanhas e coníferas dominando o ambiente era o que se via. Fiéis à planilha que o nosso amigo “Sampinha” tinha baixado da internet, reduzido e plastificado, fomos vencendo, sem problemas, os primeiros 15 ou 20km. Sem problemas mesmo, já que não havia grandes subidas ou descidas, o que nos fez duvidar que o pedal seria assim tão difícil...


No portal de Monte Verde

Preparativos para a saída

"Sampinha" & Andreza

Início do caminho








Morros ao longo do caminho

Longa subida rumo a Gonçalves


Fazendo uma graça


Não demorou muito até que uma infindável sequência de subidas e descidas nos começasse a mostrar que o pedal era mesmo pesado e, àquela altura, o suor corria solto, e nós só nos lembrávamos do frio nas grandes baixadas e descidas. Alguns quilômetros antes de Gonçalves, nossa primeira parada, topamos com uma memorável parede, não muito longa, mas extra inclinada e calçada com pedras, bem ao estilo do que se vê na “Volta dos Oitenta, a desossa”, que nos veio confirmar que o desafio aumentaria à medida que avançávamos. Os 6km finais até Gonçalves, ao contrário do caminho até então, foram feitos quase todos em forte descida e chegamos lá com um céu maravilhosamente azul e ao som de música barroca. É, isso mesmo, música barroca! É que, naquele dia, teria início um festival de música erudita que acontece anualmente na sua praça principal. Ainda surpresos com o evento, para nós inimaginável naquele lugar, tentamos contato com as nossas apoiadoras, sem sucesso. Tentamos várias vezes, mas nada de conseguirmos falar com elas – teriam perdido-se em alguma quebrada do emaranhado de estradinhas da região? Como a fome já apertava, não tivemos outra escolha a não ser, preocupados, procurar um lugar para comer enquanto as esperávamos. Terminamos de comer e nada da dupla apoiadora aparecer. Alguém pensou que talvez elas não tivessem entendido bem e rumado diretamente para Campos do Jordão e, alentados por essa idéia, resolvemos recomeçar o caminho que, segundo a planilha, passaria pelos mesmos 6km que tínhamos acabado de fazer, só que, agora, morro acima! Houve opiniões de que a talvez a planilha estivesse errada, mas cedo entendemos que os Sampa fazem o trajeto em dois dias e que, após dormir em Gonçalves, tinham que, obrigatoriamente, fazer o caminho de volta até uma entrada para São Bento do Sapucaí, lá em cima do morro... Assim, de barrigas cheias, saímos para enfrentar, de cara, uma subida de lascar! Para nossa surpresa, encontramos as meninas jurássicas logo na saída da cidade e descobrimos que elas, na realidade, não se tinham perdido mas, sim, achado algumas lojas muito interessantes em Monte Verde... Aproveitamos o encontro para nos livrarmos dos agasalhos que ainda tínhamos conosco e que, àquela altura, só nos atrapalhavam, já que o tempo tinha esquentado bastante e, enquanto elas foram almoçar, nós retomamos nosso caminho.

Gonçalves


Barriga cheia, pé na areia! Saindo de Gonçalves



Subindo a serra


Pedra do Baú (arquivo)


Vencido esse subidão, agora com cerca de 12km a mais do que o necessário, finalmente tomamos o rumo certo e lá fomos nós. Com o mesmo padrão de intermináveis subidas e descidas, fomos vencendo quilômetro após quilômetro até que chegamos ao topo da Mantiqueira no lado mineiro e, sabíamos, iniciaríamos uma descida muito longa, talvez com uns 6km, e muito perigosa. Logo de início, uma paisagem deslumbrante nos fez parar – víamos, lá embaixo, o vale seguido pelo Rio Sapucaí Mirim, onde ele serpenteia por entre belíssimos picos, com a vista de São Bento do Sapucaí incrustada entre eles e, ao fundo e à direita, a imponente visão da Pedra do Baú. Pena que não tivéssemos máquina fotográfica, já que a minha tinha estragado e que os celulares estivessem sem baterias (além de ninguém ter-se lembrado de carregá-las, o tempo frio diminui a duração delas...), de modo que perdemos a oportunidade de eternizar nossas presenças nesse belíssimo cartão postal. Como só de beleza não se faz um pedal, tratamos de continuar a descida, que foi de arrepiar: muito inclinada, escorregadia, cheia de cascalhos e com cotovelos inimagináveis para uma estrada de terra. Com a adrenalina a mil, descemos rápido, com alguns perigosos escorregões e com o encontro com uma camionete que subia a serra... se o Silas não tivesse sido muito hábil, teria ou batido de frente com ela ou afundado num barranco! Mesmo com o susto, descemos com entusiasmo até a pequena estrada estreita e com asfalto precário que nos levaria até São Bento do Sapucaí e, de lá, até Sapucaí Mirim. Um pouco antes de atingirmos a pequena Sapucaí Mirim, fizemos uma parada para um suco de milho e para conferirmos a planilha. Estávamos, uns mais, outros menos, todos dispostos ao grande desafio que, também já sabíamos, teríamos pela frente. Era chegada a hora de subir até o topo da serra no lado paulista e a planilha dizia tratar-se de “uma subida longa e íngreme” e aconselhava (ou ironizava, não estamos certos): “Aproveite a vista.” E assim iniciamos a tal subida já com 102km rodados, cheios de expectativa e sem sabermos exatamente a sua extensão. Desde o início a subida se impôs como um grande desafio, com uma sequência infindável de curvas, moderadamente inclinada na sua maior parte mas com pontos bastante íngremes, chão ora pedregoso, ora arenoso, e sem um ponto sequer onde se mostrasse plana ou permitisse descanso. Concentrados como estávamos, no início o pedal foi fluindo facilmente mas, após algum tempo, as pernas começaram a arder e, por fim, já estávamos meio que desesperados pelo seu fim. Claro que falo por mim, já que havia parceiros que estavam mais e outros menos inteiros que eu. O fato é que, após momentos que pareceram uma eternidade, finalmente chegamos ao ponto mais alto, junto ao asfalto, após 9km subidos em uma ascendência de cerca de 800 metros. Daí em diante tudo foi só festa e, apesar do vento frio, suados e com calor, pegamos o asfalto que nos levaria a Campos do Jordão, uns 2 ou 3km abaixo e adiante. Chegamos era ainda com o dia claro e o termômetro apontava temperatura de 10graus. Como esse trecho tinha sido só descida, perdemos todo o aquecimento e estávamos tremendo de frio à entrada da cidade. Telefonamos para as apoiadoras e combinamos de encontrar-nos no mercado municipal, onde o ambiente é fechado e poderíamos tomar algo bem quente. Com a chegada dos carros jurássicos, prendemos as bikes e rumamos diretos à casa que a Andreza que, com muito trabalho, tinha conseguido para o nosso pouso. A casa, pequena mas confortável, toda mobiliada e com todo o equipamento necessário, foi perfeita para a nossa estadia. Imediatamente vinhos foram abertos e todos, depois de um banho quente e relaxante, saímos para comemorarmos com uma bela pizza mais esse incrível pedal.


Início do subidão


Subindo o subidão


Comemorando em Campos do Jordão
No dia seguinte, após uma ótima noite de sono e totalmente refeitos, saímos para desfrutar um pouco a elegante e vibrante Campos do Jordão. Gente bonita e alegre, todo mundo bem vestido como tipicamente se vê no inverno, vitrines bem montadas e muita coisa boa distraiu-nos a atenção até a hora do almoço, quando uma bela comida japonesa encheu os olhos de quase todos. Saciados e felizes com mais esse sucesso,  retornamos a Varginha, já com vontade de pedalar outra vez...
É, muito tempo já se tinha passado, mas o sonho de concretizar a travessia não tinha diminuído... Quase dez anos depois, o que parecia intransponível foi vencido com sobras e, com grande alegria e entusiasmo, podemos verificar que o passar dos anos não nos tem minorado a disposição e nem o vigor. Pelo contrário, estamos hoje mais fortes, mais experientes e melhor condicionados, capazes de fazer a travessia muito melhor do que a teríamos feito antes em qualquer época. Esse pedal foi ótimo, inesquecível mesmo. E, o melhor de tudo, feito com caros amigos que estão sempre presentes e que compartilham a mesma paixão pelas aventuras e desafios, que fazem questão de pedalar forte, mas que também não se esquecem de curtir a magia de cada pedal que se faz. Claro que isso nos empurra à frente, fazendo com que novos fantásticos projetos ocupem o nosso desejo e as nossas mentes. Qual será o nosso próximo destino? Bem, não sabemos ainda, mas o roteiro há de ser o mesmo: “jovens” dinossauros cruzando a serra e brincando de sonhar...


Rodrigo


FICHA TÉCNICA:

Travessia Monte Verde - Campos do Jordão
114km
Ascendência: 2700m
Tempo de pedal: 6h30min
Participantes: Adilson, Hebert, Rodrigo, Ronaldo e Silas
Apoiadoras (nota 10!): Alessandra e Andreza


*  *  *

3 comentários:

Anônimo disse...

Que maravilha... quando for reeditado, quero ir.
Abraço,
Marcelo Figueiredo

Bikessauros disse...

Rodrigo, que primor de relato! Parabéns mentor.
Realmente uma aventura que merece repeteco. Agora que dimensionamos o esforço do trajeto, podemos melhorá-lo com a inclusão de trilhas. Muitas nesta região privilegiada.
A busca por novos caminhos é motivante e como você mesmo diz "Uma vida é pouco para tantos projetos".
Agradeço a oportunidade de mais uma vez ligar pensamento a ação, neste caso Monte Verde a Campos do Jordão, rs.
Agradecimento especial ao apoio nipo-brasileiro.

Abraços, Ronaldo "Sampinha".
P.S.: Bem que a planilha nos salvou na última subida para Campos. Tinha neguinho indo pelo caminho errado.

Anônimo disse...

Tá bom, Ronaldo, é verdade, a planilha ajudou, sim... kkkkkk

Rodrigo